quarta-feira, 12 de outubro de 2011



 



UM TEXTO SEDUTOR


Quando lemos a peça “MERLIN”, de Luís Alberto de Abreu, foi como se um  sopro de esperança inundasse o ambiente.

 Vimos, nela, o desenho de um gigante em luta por uma causa, que não é apenas dele e, provavelmente, não lhe trará lucros e benefícios pessoais.

Vimos um homem que dedicou sua vida a construir uma nação.  Ele não  é um rei, nem um guerreiro. Suas armas são a crença na Justiça e a confiança em que somos capazes de superar nossas paixões mais mesquinhas, voltando nossos olhos para o bem comum.

E o texto do Abreu torna-se ainda mais atraente e sedutor, ao reconhecer que, mesmo tratando-se de um personagem da grandeza do lendário Merlin, todos estamos sujeitos às restrições da nossa  própria natureza.  E a magnitude do homem reside, exatamente, em estar consciente das suas limitações e em perceber o quão rapidamente nos extinguimos e, em contrapartida , nossa obra, boa ou má, é que falará por nós.

Estas são as razões, que nos levaram a encenar  “MERLIN”. 

Estamos convictos de podermos trazer uma contribuição muito positiva para o debate sobre o papel de cada um de nós , diante da nação que pretendemos construir.


           

POESIA, MISTÉRIO, MAGIA.


O texto de L. A. de Abreu é carregado de poesia, o que, naturalmente, será conservado e cultivado na construção do espetáculo.

Além disto, pela própria natureza dos personagens envolvidos, além do clima de mistério e magia, próprios  do tempo em que foram gerados, e a insinuação da presença de forças, sobre as quais pouco sabemos (“Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que julga a vossa vã filosofia.” –W. Shakespeare) são fatores   determinantes para o tipo de encenação a ser encaminhado.

Por outro lado, ou até mesmo reforçando tais aspectos,  toda a construção estará apoiada no desempenho dos atores, considerando-se a densidade  e a riqueza de significados do texto.

Isto leva-nos a um modo mais intimista, mais próximo, mais confidencial, sobretudo ao ponderarmos o caráter narrativo da peça em questão, e  que já é figura integrante da Dramaturgia deste autor, principalmente nas peças da sua fase de Teatro  No, como “MARIA PEREGRINA” e “UM DIA OUVI A LUA”, aclamados pela crítica e prestigiados pelo público.

Imaginamos um espetáculo poético, envolto num clima de magia e  denso por seu significado.







O DESAFIO
Desde o primeiro contato com “MERLIN”,  percebemos o quanto ele vinha ao encontro de muitos  de nossos anseios e reflexões, referentes tanto  ao campo da estética, como ao  das relações humanas.

Por um lado, o autor nos propõe um Teatro com forte teor narrativo, o que nos leva a romper com alguns padrões habituais e a uma pesquisa cênica muito cuidadosa.
Por outro, ele apresenta-nos um personagem fascinante, impulsionado pelo amor ao seu povo e posto diante de circunstâncias radicalmente desafiadoras.
E tudo isto num total contexto de atualidade.



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A HISTÓRIA
Sob o reinado de Arthur, Merlin acreditou que realizara seu sonho: construíra uma nação justa e em paz.
Mas é surpreendido ao descobrir, que as pessoas estão nascendo sem alma e, também, que Mordred, filho bastardo de Arthur, avança com um exército, para destronar o pai.
Merlin parte ao encontro do jovem, para detê-lo e salvar a obra de sua vida, mas encontra uma moça no caminho e vive o momento mais difícil e intenso de sua sábia trajetória.







NOSSO SONHO

Sempre que montamos um espetáculo, o primeiro desejo é estar abrindo a possibilidade da discussão de um determinado assunto.
Se obtivermos isto, já nos consideraremos muito bem sucedidos.
Porém, um empreendimento desta envergadura merece e pode alcançar  outros propósitos, concretizar outros sonhos .
Em nossas  apresentações, a intenção viabilizar a presença de jovens  de baixa renda,
estudantes da rede pública de ensino.
Temos , também, o sonho de gravar o espetáculo em DVD, juntamente com o registro de outros tipos de narrativa popular , possibilitando uma visão comparativa. A idéia é distribuir, gratuitamente,  este produto nas escolas do Estado
Enfim,  são passos a se desenvolverem durante o processo de vida do espetáculo. 



OS CELTAS
Eles não deixaram absolutamente nada escrito. Num ao menos uma canção. Ninguém consegue dizer com precisão a sua origem e, sequer, há certezas sobre todos os grupos humanos, que poderiam ser chamados por este nome.
À exceção dos gauleses da Armórica, ou Pequena Bretanha, e dos galeses, que se agruparam num canto da Grâ Bretanha, no País de Gales e ao sul da Irlanda, todos os outros ficam mergulhados no lago da incerteza.
Entretanto a sua influência é forte, ampla e vibrante.  No Teatro Elizabetano, modelo e padrão para todo o mundo ocidental, na literatura de Joyce , ou Kafka, verdadeiros paradigmas do mundo da escrita, nas figuras míticas do cristianismo e até em crenças e costumes praticados em festas sazonais, os ecos da cultura celta fazem-se presentes.
Aqueles povos  construíram um universo mitológico e uma maneira de explicar o mundo plenos de fantasia, ricos em amor pela natureza e guiados por um sentimento de liberdade verdadeiramente indomável.
Merlin é a síntese de todos os anseios e, por outro lado, do desespero  de um povo, ao pressentir, que sua cultura e sua autonomia estavam gravemente ameaçadas pelas sucessivas invasões de pictos, saxões, romanos e cristãos de um modo geral.    



PAIXÃO 
       
Os celtas eram movidos pela paixão.  Enquanto os povos reunidos no sul da Europa, aqueus, jônios, dórios e outros, que acabaram formando o que conheceríamos como o povo grego, caminharam na busca do desenvolvimento da razão, do equilíbrio e da justa medida, as diversas tribos qualificadas como celtas mantiveram-se no estágio anterior a esta fase da evolução humana e criaram uma cultura toda ligada à natureza, à obediência aos instintos mais fundamentais e à lei da tradição, na qual os limites para as ações do homem são a sua própria capacidade, sua força e sua coragem.
Ao lermos os resgates, embora fragmentados e confusos, da história de seus reis, uma única coisa encontra-se presente nas diversas versões: para o bem ou para o mal, eles agiam sempre de forma apaixonada, apostando a vida e a morte em cada lance.
O personagem Merlin não nega sua origem. Vive apaixonadamente a obra a que se propôs e mostra-se capaz de viver sua paixão particular, despertada por NIniane, até as últimas consequências.
Para ele, tal como para todo o seu povo, não há meias medidas. A única dimensão possível é a vida que jorra em sua totalidade.
Nossa relação com este projeto não está nada distante do perfil que acabamos de descrever . Trata-se de um caso de paixão irrevogável.
Com ele pretendemos experimentar aspectos pouco usuais para a maioria das pessoas, queremos correr o risco, questionar nossas possibilidades. Pouco nos importa como nos avaliarão. Interessa-nos viver plenamente o que estamos sentindo nesta fase de nossas existências.   

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